16 de janeiro de 2012

Interesse Narciso

Num transbordo confuso de ternura e energias, a gente se olhou e amou um ao outro. Não amor de pele, mas amor intelecto, poético simpatizante. Que olha de longe, só quer conversar. Descobrir. Envolver. Misturar inspirações. Alastrar-se a arte de um amor contemporâneo. Um fato em destino, ideias que se encaixam, ‘você se parece comigo’ ‘exato a minha dor’
E num pôr do sol em Humaitá na cidade baixa, bebemos vinho e nos pusemos reais um ao outro. Aquele cheiro de mar e mato, a ebriedade balançante do vinho e, ele se invocou a uma posição cruzando as pernas em modo Caetano filosófico burguês, fazendo uma de suas sobrancelhas subir em seguida. E assim permaneceu... Nesse estado corporal congelante Don Juan de mil faces. Passando a vomitar sua teoria narciso taurina; ‘Eu, eu, eus’ Sem o mínimo esforço de humildades, alcançou um breve; ‘Porque somos assim, os melhores, somos simplesmente assim, os fodas’
‘Não, não, espere aí. Eu não sou ego burguês nazista. Sou muito segura da minha posição de fracasso passional egoísta. Sou livre porque não tenho medo das minhas dores, das minhas angústias e do que perdi. Não sou como vc.. Inseguro, incompreendido, que se sente inferior as suas paixões e usa como defesa o ego intelecto arrogante, o ar esmiuçado antipático pra se recompor e disfarçar-se voador, não rastejante. Não, eu não sou como você, seu amor não é liberdade, sua dor não é cumplicidade, sua poesia é vã. ’
Ele me olhou. Acendeu um cigarro. Acorcundou-se e olhamos pra lados opostos. Humaitá silenciava. De fundo ouvia-se o estalar das pipocas. E o pipoqueiro olhava-nos atento, como se fossemos explodir a qualquer momento.
Acordei com a ressaca mais frustrante da minha vida. Pensei nele e no seu ar de pombo rei filosófico. Tive medo. Medo de me tornar futuramente um coração ego burguês amargurado, arrogante... E deixe de amar e falar sobre o amor com a mesma humildade e liberdade de hoje, apenas por defesa.

6 comentários:

Luiz Neves de Castro disse...

Texto de grande intensidade, viajei até: "é que Narciso acha feio o que não é espelho".
Incluí seu blog no blogroll da Egrégora: Carrancas Literárias.
Beijo afetuoso

Cau disse...

Arrasando sempre, Clau!
Adoro a forma como você detalha as coisas. É incrível!

Paloma Gavazza disse...

Muito legal seu blog! Massa seus textos!!! Bjss!!

Paloma Gavazza

www.vivendoemerecriando.blogspot.com

Raíssa disse...

Clau, me vi na sua historia....A mesma situaçao, so mudaria o local. Dejavu.

Paula Franz disse...

Apenas gosto das suas palavras!!!
TE ADOR-ROOOO

dai-ane disse...

Muito lindo, intenso. Estivemos lá, pintastes a cena com palavras.